Tudo que você precisa saber sobre dízimos e ofertas

09-07-2010 17:48

Chega um conhecido momento do culto. O pastor chega no púlpito, abre a bíblia e lê Malaquias 3:8-12. Em seguida complementa com algo do tipo: “irmãos, as coisas que temos são de Deus, como prova de fidelidade ele quer apenas 10% daquilo que já é dele. Se você não der seu dízimo estará roubando de Deus, e sujeito a todo tipo de maldições e ataques do devorador. Traga seus dízimos e ofertas alçadas e você será muito abençoado!”

Está ali na bíblia. Uma clara ordem: “trazei todos os dízimos à casa do tesouro...”. Incontestável, não é mesmo? Sim, desde que se responda satisfatoriamente a pergunta: Para quem é esta ordem e sobre o que está se referindo?

Muita discussão tem se travado sob este tópico. Comunidades se dividem, relacionamentos se desfazem, e o evangelho pregado aos poucos tem menos foco na verdade bíblica. Além das opiniões diferentes os interesses envolvidos divergem, produzindo a confusão que vemos hoje.

Sem a pretensão de dar a resposta definitiva à questão, muito menos de estar agradando a “gregos e troianos”, procurarei responder de forma simples às algumas questões que julgo serem mais relevantes:

a) Qual a origem e propósito dos dízimos?
b) Os dízimos são obrigatórios hoje?
c) Os dízimos devem ser fonte de sustento da igreja?

Antes de prosseguir com o primeiro ponto, gostaria de deixar claro que não busco afirmar que um cristão não deva ou não precise contribuir financeiramente com a obra de Deus. Mas sim, como fazê-lo da forma correta, com a motivação correta, e estando atento aos “mercenários disfarçados de pastores” que atacam o rebanho desde o surgimento da igreja.

Origem e propósito dos dízimos

A palavra dízimo representa a décima parte de algo. Contribuição ou imposto equivalente à décima parte de um rendimento. Era comum nas sociedades antigas como renda atribuída ao dono da terra, em forma de tributo, pago por quem explorava a terra.

Na bíblia, em Gênesis 14:17-20 encontramos a prática de entregar o dízimo pela primeira vez:

“Após voltar Abrão de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no vale de Savé, que é o vale do Rei. Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo”.

Em Gn 28.18-22, há uma nova menção do dízimo. Na ocasião, Jacó fez um voto comprometendo-se a dar dízimo de tudo que Deus desse para ele. Tanto nesta passagem como na de Abraão, podemos ver facilmente que o ato de dar dízimo foi voluntário.

Com a instituição da Lei, surgiu a obrigação do povo trazer seus dízimos a um lugar designado por Deus. Em Números 18 lemos que os dízimos seriam o sustento dos filhos de Levi, tribo dedicada ao sacerdócio de Deus. Eles não teriam herança nesta terra, por isso receberiam os dízimos de Israel, tendo o direito de cobrar das outras tribos. Em II Crônicas 31 e em Neemias 10:37 vemos novamente a ordem para que se trouxessem sustento aos sacerdotes através dos dízimos e ofertas.

Além de sustentar a tribo de Levi, o dízimo (no conceito da lei), tinha uma função cerimonial, como podemos ver nestas passagens:

“A esse lugar trareis os vossos holocaustos e sacrifícios, e os vossos dízimos e a oferta alçada da vossa mão, e os vossos votos e ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e ovelhas;” (Deuteronômio 12: 6)

“Dentro das tuas portas não poderás comer o dízimo do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, nem os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas, nem qualquer das tuas ofertas votivas, nem as tuas ofertas voluntárias, nem a oferta alçada da tua mão; mas os comerás perante o Senhor teu Deus, no lugar que ele escolher, tu, teu filho, tua filha, o teu servo, a tua serva, e bem assim e levita que está dentre das tuas portas; e perante o Senhor teu Deus te alegrarás em tudo em que puseres a mão.” (Deuteronômio 12:17-18)

“E, perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus por todos os dias. Mas se o caminho te for tão comprido que não possas levar os dízimos, por estar longe de ti o lugar que Senhor teu Deus escolher para ali por o seu nome, quando o Senhor teu Deus te tiver abençoado; então vende-os, ata o dinheiro na tua mão e vai ao lugar que o Senhor teu Deus escolher. E aquele dinheiro darás por tudo o que desejares, por bois, por ovelhas, por vinho, por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; comerás ali perante o Senhor teu Deus, e te regozijarás, tu e a tua casa.” (Deuteronômio 14:23-26)

“Quando acabares de separar todos os dízimos da tua colheita do terceiro ano, que é o ano dos dízimos, dá-los-ás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas portas, e se fartem. E dirás perante o Senhor teu Deus: Tirei da minha casa as coisas consagradas, e as dei ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, conforme todos os teus mandamentos que me tens ordenado; não transgredi nenhum dos teus mandamentos, nem deles me esqueci.” (Deuteronômio 26:12-13)

Após ler os textos que falam sobre os dízimos, é simples entender que sua entrega servia para sustentar os sacerdotes no templo, os levitas, os órfãos e as viúvas. Sempre está relacionado à cereais, gado e outros produtos da terra. Mas nunca relacionado a dinheiro, ouro ou prata. Ao contrário do que muitos pensam, dinheiro e riquezas já existiam na época, e eram ofertados livremente pelo povo, segundo o que sentiam no coração. ...

... Não há menção na bíblia de que alguém tenha dado dízimos (no conceito da Lei) de ouro, prata ou outras riquezas.

Eis algumas passagens onde podemos ver pessoas ofertando riquezas voluntariamente, e não segundo a lei: Êxodo 25; Êxodo 35:22; I Crônicas 29:3; Lucas 21:1-4; Atos 4:34.

Os dízimos são obrigatórios hoje?

Seguramente não. Se admitirmos que os dízimos continuam obrigatórios, estaremos em apuros:

1 – Visto que dízimos são relacionados sempre a alimentos, as pessoas estariam cumprindo a lei de forma errada. E os pastores pregando engano, pois dessa forma o mandamento dos dízimos esta essencialmente distorcido.

2 – Mesmo que déssemos o dízimo de cereais, vinho e azeite, conforme o povo judeu dizimava até a morte de Cristo (quando ainda estavam sob a Lei), estaríamos ferindo o princípio de Gálatas 3:10 “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.” Quem coloca-se debaixo da Lei como sendo um dos requisitos para justificação, está rejeitando a graça de Deus, que mediante a fé em Jesus Cristo justifica independentemente do cumprimento das obras da Lei (Romanos 3 e Gálatas 2). Aí sim a pessoa atrairá maldição sobre si, pois Jesus foi o único capaz de cumprir toda a Lei.

3 – Não há uma passagem no NT que instrua a igreja a dar os dízimos (nem de alimentos, muito menos de dinheiro) segundo a ordenança de Malaquias 3. Existem citações sobre dízimos, mas devemos atentar para o que elas ensinam:

  • Mateus 23:23 e Lucas 11:42 – Jesus critica os fariseus porque eram fiéis no dízimo, mas pecavam em relação à justiça, misericórdia, fé e amor de Deus. É só ler para entender que a crítica não está no fato dos fariseus dizimarem de hortaliças, pois esse princípio estava correto. Jesus ainda disse “estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas”. Outra coisa que poucos percebem nesta ocasião é que acontecia nesta época uma transição entre a Lei e a Graça, Jesus ainda não havia morrido, ainda não estava “consumado”. Hoje, nem os judeus deveriam se sujeitar a Lei afim de obter justificação, quanto mais os gentios.
  • Lucas 18 – Aqui novamente vemos que o fariseu observava apenas uma parte da Lei, omitindo outras, não sendo justificado. Enquanto o publicano que a transgredia, obteve justificação.
  • Hebreus 7 – O objetivo dessa passagem é provar a superioridade de Cristo como sacerdote e não que a igreja deva pagar dízimos a Jesus, representado pelos pastores, como muitos afirmam. Jesus em seu ministério não recebeu dízimos. Além disso, em I Pedro 2 lemos que não só os pastores, mas todos os cristãos são sacerdotes.

Os dízimos devem ser fonte de sustento da igreja?

Do ponto de vista de textos como Malaquias 3 jamais. É uma grande falácia afirmar que o compromisso mínimo do cristão seja dar 10% do seu salário, sob risco de ser amaldiçoado se não cumprir com esta “obrigação”. Torce o significado e a função do dízimo descrita na bíblia, além de ferir o princípio de contribuição que surgiram com a igreja primitiva.

Então não precisamos nos preocupar com o sustento da igreja? É claro que devemos, mas antes quero lembrar que Deus não habita mais em templos. A igreja (corpo de Cristo) passou a ser o templo vivo de Deus. Lendo as cartas, e a história da igreja em Atos, vemos que era o corpo de Cristo que as pessoas deveriam sustentar.

Os princípios norteadores são passagens como estas:

  • “Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos.” (Atos 4:34)
  • “Mas digo isto: Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e aquele que semeia em abundância, em abundância também ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.” (II Coríntios 9:6-7)
  • “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?” (1JO 3:16-17)

Então, o erro está em a pessoa ver a necessidade do irmão (o pastor também é irmão certo?) e, tendo condições de ajudar, não fazer nada. Os textos de 1 Ts 5.12; 1 Tm 5.17,18; 1 Co 16.10 mostram a responsabilidade de prestar assistência aos obreiros, decorrente de um amor especial, e jamais de uma obrigação legalista. O que deve suprir as necessidades do pastor, e de todos os irmãos em dificuldades são as ofertas voluntárias, movidas no coração de alguém que possui o amor de Deus.

Concluindo

Como se pode pensar que 10% do salário cumpre o mínimo das obrigações do cristão? Deus não espera 10% da nossa renda, Deus quer 100% de nossa vida, e não só com relação à ofertas. Ninguém pode ser um mero espectador e/ou patrocinador da obra. Todo cristão foi chamado a ser ministro de Cristo, como lemos em 1PE 2:9 “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;”

Não é pecado separar 10% da renda como oferta. O problema são as motivações que vão no coração. Uma mulher pode querer deixar o cabelo crescer, mas a partir do momento em que se crê ou ensine que disso depende a salvação, ou que se está pecando ao cortar o cabelo, aí é outra história.

Cuidemos com o fermento dos fariseus. Lembremos sempre: um pouco de fermento (mesmo que só um pouquinho) leveda toda a massa.

Que Deus os abençoe.

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